sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Casa nova!













Queridas e queridos, estou de casa nova.
O Fragmentos agora é mais espaçoso e colorido e vou adorar receber a visita de vocês por lá.

Algumas coisinhas ainda estão em andamento, mas no geral ele está bem bonito e estou feliz e ansiosa pra saber o que vocês acharam.

O novo endereço é: bethsalgueiro.com.br
Beijo pra vocês, até lá!!

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A Casa dos Sonhos





























Sonhei muito esses dias com a mesma cena, recorrente há anos, e encontrar essa foto na internet foi como abrir uma represa da memória e tudo vir de vez, aos borbotões.

No sonho estou subindo essas escadas, de madeira velha e gasta. Subo devagar porque sei que o penúltimo degrau antes de chegar em cima faz um barulho quando se pisa sem muito cuidado: rrassginn... é um rangido bem alto, que destoa do silencio geral que reina no ambiente.

Essa parte da casa aí em cima é meu refúgio particular e o rangido na escada avisa que vem subindo alguma pessoa. Tenho até a impressão no sonho que o pequeno defeito no degrau foi feito de propósito, pra garantir a minha privacidade.

Quase sinto o cheiro da cera que vem do piso de madeira, tão velhinho, cheio de marcas e história. Os livros em cima da cadeira fui eu quem deixei, são diários de viagem que ainda estou lendo. Ao lado da cadeira, uma mesa que vira escrivaninha e em cima dela mais livros e pequenos objetos, um dos quais é um tipo de urna pequena, onde guardo flores secas roubadas de jardins alheios.

A porta dá direto no meu quarto. Ali tem a minha cama estreita, com cortinado de princesa, uma poltrona azul de leitura com apoio para os pés, e mais e mais livros. E um tapete gasto, que veio de alguma pessoa querida. A luz clara e aberta vem de uma janela grande, com cortinas, que dá pra um páteo cheio de arvores com algumas frutas. Tudo é usado, tudo velhinho mas em perfeito estado. Sinto até o cheiro dos tecidos e das coisas. Testemunhas mudas de parte de minha vida.


















Muitas noites, através dos anos, fui em sonhos para esse lugar, onde fico sozinha, mas feliz e em paz. É claro para mim que conheço cada objeto que está no ambiente e que as memórias impregnadas em todas as coisas me pertencem, são minhas e de mais ninguém. Mas onde fica esse lugar? Não faço a menor ideia. Será um mundo paralelo onde presente se confunde com o passado? Lugar onde a gente tem acesso somente em sonhos e em momentos de necessidade?
Não sei.

Também não sei onde a foto foi feita, nem quem é o seu autor. Me lembra muito vagamente algumas casas de Olinda, mas definitivamente não é lá. E no entanto ela traduz com perfeição alguma coisa que vive dentro de mim.

Caminho por aí em sonhos há muitos anos, sempre o mesmo lugar. Sei que sou bem vinda e estou em casa. Talvez seja um lugar de cura, um lugar de repouso restaurador.
Mas é muito real.


Alguma de vocês já se sentiu assim?

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Cosme e Damião - Bejiró!






















Hoje é dia de comemorar o orixá Ibeji, o Orixá-Criança, na verdade duas divindades gêmeas infantis, ligadas a todos os orixás e seres humanos, sincretizados nos santos gêmeos católicos Cosme e Damião.
Por serem gêmeos, são associados ao princípio da dualidade. Por serem crianças, são ligados a tudo que se inicia e nasce: a nascente de um rio, o nascimento dos seres humanos, o germinar das plantas, etc.
Ibeji na nação Ketu, ou Vunji nas nações Angola e Congo, é o Orixá Erê, ou seja, o Orixá criança. É a divindade da brincadeira, da alegria, a sua regência está ligada à infância.
Ibeji está presente em todos os rituais do Candomblé pois, assim como Exú, se não for bem cuidado pode atrapalhar os trabalhos com as suas brincadeiras infantis, desvirtuando a concentração dos membros de uma Casa de Santo. É o Orixá que rege a alegria, a inocência, a ingenuidade da criança. A sua determinação é tomar conta do bebé até à adolescência, independentemente do Orixá que a criança carrega.
Ibeji é tudo o que existe de bom, belo e puro. Uma criança pode nos mostrar o seu sorriso, a sua alegria, a sua felicidade, o seu falar, os seus olhos brilhantes. Na natureza, está na beleza do canto dos pássaros, nas evoluções durante o voo das aves, na beleza e perfume das flores.
Ibeji é a criança que temos dentro de nós, assim como as recordações da infância. Feche os olhos e lembre-se de um momento feliz, de uma travessura, e você estará revivendo uma lenda deste Orixá. Pois tudo aquilo de bom que nos aconteceu na nossa infância, foi regido, gerado e administrado por Ibeji. 














Contam os Itãs (conjunto de lendas e histórias passados de geração a geração pelos povos africanos) que os Ibejis são filhos paridos por Iansã, mas abandonados por ela, que os jogou nas águas. Foram abraçados e criados por Oxum como se fossem seus próprios filhos. Por isso os Ibejis são saudados em rituais específicos de Oxum e, nos grandes sacrifícios dedicados à deusa, também recebem oferendas.
Na mitologia iorubá, os dois erês gêmeos tiveram um irmão mais novo, de nome Doum, que serve como balizador do equilíbrio e da justiça com igualdade nos seus cultos.  Alguns casas de oração mostram imagens com três crianças, e que são muito lindas. 










No sincretismo da religião católica, os Ibejis viraram os santos Cosme e Damião, também gêmeos, que viveram na Asia Menor, na época do imperador Diocleciano. Os dois eram médicos, e viveram a sua vida devotados a cuidar da saude de crianças e dos animais. Diz-se que eles não cobravam por seus atendimentos. Em algumas regiões também são chamados de Crispim e Crispiniano. Pouco se sabe sobre a sua morte, apenas que aconteceu em 300 depois de Cristo. 
As comemorações desse orixá incluem distribuição de balas, chocolates e outros doces entre as crianças, que vão de casa em casa com uma sacolinha perguntando pelos presentes de Cosme e Damião.















A lenda e a história de Ibeji, acontece a cada momento feliz de uma criança. Ao menos para manter vivo este importante Orixá, procure dar felicidade a uma criança. Faça você mesmo o encantamento de Ibeji. É fácil: faça gerar dentro de si a felicidade de estar vivo. Transmita esta felicidade, contagie o seu próximo com ela. Encante Ibeji com a magia do sorriso, com o amor de uma criança. E seja Ibeji, feliz!


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

No dia da árvore, o milagroso Baobá

















Hoje é Dia da Árvore, um dia muito especial, que a gente comemora aqui na minha casa.
Nesse dia quero louvar o Baobá (Adansonia digitata), a mais estranhamente linda e altiva planta que já vi. Os cientistas dizem que ela é praticamente um ecossistema, porque pode sustentar sozinha a vida de incontáveis criaturas. 














Um baobá vive até 6.000 anos e suas sementes demoram 10 anos para germinar. Quando adulto pode chegar a 25m de altura e 7m de diâmetro. Elas parecem ter sido plantadas de cabeça pra baixo, porque seus galhos lembram raízes... eles ficam sem folhas durante nove meses do ano, tempo que dura a seca nos desertos africanos, seu habitat. 













O que mais se destaca nos baobás são seus troncos extraordinários. E essas estruturas tem tuneis e canais no seu interior, fendas, passagens e reentrâncias, verdadeiros castelos que armazenas água durante os meses de chuva. Algumas chegam a armazenar até 120 mil litros de água...  Ali os elefantes enfiam a tromba pra matar a sede e os insetos se protegem do excessivo calor.  
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Outras partes dos baobás também tem sua utilidade. A casca de seu tronco é utilizada na fabricação de tecidos e corda, as folhas tem propriedades medicinais e alimentícias. As folhas são ricas em betacaroteno, e são usadas para tratar asma, diarreia, anemia e reumatismo. 
















Suas flores brancas que parecem veludo alimentam os morcegos.  Seus frutos são conhecidos como Mukua, e se parecem com grandes cocos, com sementes em seu interior. Esse miolo é coberto com um pó agridoce, que contem cinco vezes mais potássio do que as bananas, três vezes mais cálcio que o leite, seis vezes mais vitamina C que as laranjas e três vezes mais antioxidantes que os morangos.  
Das sementes se retira um óleo rico em vitaminas A e F, alem de ômega 3, 6 e 9, sendo usado no tratamento de doenças de pele, e auxiliar no tratamento da malária, sarampo, catapora e problemas digestivos.

Os baobás são as arvores milagrosas do continente africano, e o símbolo nacional da ilha de Madagascar e do Senegal.














Baobás atormentavam o Pequeno Príncipe. Ele dizia que os baobás eram grandes como igrejas... "E um baobá, se a gente custa a descobri-lo, nunca se livra dele. Atravanca todo o planeta. Perfura-o com suas raízes. E se o planeta é pequeno e os baobás numerosos, o planeta acaba rachando"... 
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Na Africa do Sul, um baobá de 22m de altura e 47m de circunferência e mais ou menos 1.700 anos, foi transformado em pub. Os proprietários da fazenda onde ele está plantado removeram as massas de composto do seu interior oco e ali instalaram mesas, bancos, sistema de som e muita cerveja. 

Em dias de festa, o Baobab Tree Bar, como foi batizado, já recebeu 60 pessoas de uma vez. Além do ambiente principal, ainda tem um buraco que é uma adega, resfriada por ventos naturais a uma temperatura constante de 22 graus.








quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Trança a tua tristeza, menina...



















“Minha avó me dizia: quando te sintas triste, menina, entrança o cabelo, prende a dor na madeixa e deixa escapar o cabelo solto somente quando o vento do norte sopre com força. O nosso cabelo é uma rede capaz de apanhar tudo, é forte como as raízes do cipreste e suave como a espuma do atole.

Que não te apanhe desprevenida a melancolia, minha neta, ainda que tenhas o coração despedaçado ou os ossos frios com alguma ausência. Não deixes que a tristeza entre em ti com o teu cabelo solto, porque ela irá fluir em cascata através dos canais que a lua traçou no teu corpo. 

Trança a tua tristeza, dizia. Trança sempre a tua tristeza.

E na manhã, ao acordar com o canto do pássaro, ele encontrará a tristeza pálida e desvanecida entre o trançar dos teus cabelos"… 

(Historia contada pelas ‘abuelas’ da Nicaragua, registrada pela antropóloga Paola Klug)

sábado, 10 de setembro de 2016

As cidades submersas da china

ShichengHecheng  são cidades de 1.800 anos de idade, situadas na província de Zhejiang, leste da China, deliberadamente sacrificadas sob o lago artificial Qiandao em 1959, criado a partir da construção de uma hidrelétrica, no governo Mao. Junto com elas, desapareceram cerca de 27 aldeias e mil vilas, todas assentamentos de historia milenar. 
Os 290 mil habitantes dessas cidades precisaram migrar para outras regiões, a fim de fugir da fúria das aguas.




Hecheng foi uma cidade comercial e próspera construída há 1.800 anos, enquanto Shicheng, também conhecida como Cidade do Leão, tem 1.700 anos e foi um centro político, econômico e cultural da Dinastia Hen. Depois de ficarem submersas, as duas foram se fossilizando lentamente sob mais de 30 metros de água.

Os estudiosos pensavam ter perdido esse pedaço da história chinesa para sempre, mas, entre 2001 e 2011, o governo local organizou cinco expedições para descobrir detalhes sobre o alagamento. E então se percebeu que muita coisa das antigas cidades ainda estavam inteiras, como vigas, escalas e tijolos de casas, pátios, esculturas bem trabalhadas, portões, arcos, cemitérios e até uma telha esculpida com a frase “Fabricado no 15º ano do Imperador Guangxu”.












Atualmente a Usina de Xing'anjiang está quase inativa e o Lago de Qiandao já perdeu seu sentido como fonte de energia elétrica. Há alguns anos, técnicos sugeriram que o nível do lago fosse baixado para trazer as cidades novamente à tona, mas elas estão embaixo dágua há tanto tempo, que certamente não resistiriam à mudança de ambiente.
Além disso, o lago se tornou uma fonte de água potável para a fabricação de cerveja e água mineral e baixar seu nível poderia prejudicar os interesses econômicos da região.

Por isso é que as cidades submersas se tornaram um destino turístico de aventura para viajantes e mergulhadores, que têm a chance de conferir as ruínas litorâneas de uma civilização lendária.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Patria Minha


Vinicius de Morais tem um poema lindo sobre a pátria, que ele escreveu em 1949 e que é perfeito para o dia de hoje.

Patria Minha foi escrito em 1949, com apenas 50 exemplares impressos artesanalmente naquele mesmo ano, na editora caseira e particular de João Cabral de Melo Neto, conhecida com o nome de O Livro Inconsúntil.

O livro foi uma surpresa para Vinicius, com quem Cabral deixou todos os exemplares. Em uma carta escrita em outubro de 1949, o poeta-editor pernambucano diz em um p.s. para seu amigo carioca: “Não distribuí o livro a ninguém. Faça-o a vontade. E me mande um com dedicatória”. 
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O poema:

"A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria,
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamen
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama…

Vinicius...