quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Patria Minha


Vinicius de Morais tem um poema lindo sobre a pátria, que ele escreveu em 1949 e que é perfeito para o dia de hoje.

Patria Minha foi escrito em 1949, com apenas 50 exemplares impressos artesanalmente naquele mesmo ano, na editora caseira e particular de João Cabral de Melo Neto, conhecida com o nome de O Livro Inconsúntil.

O livro foi uma surpresa para Vinicius, com quem Cabral deixou todos os exemplares. Em uma carta escrita em outubro de 1949, o poeta-editor pernambucano diz em um p.s. para seu amigo carioca: “Não distribuí o livro a ninguém. Faça-o a vontade. E me mande um com dedicatória”. 
---
O poema:

"A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria,
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamen
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama…

Vinicius...


quarta-feira, 17 de agosto de 2016

eu creio




Creio nos anjos que andam pelo mundo
Creio da deusa com olhos de diamante
Creio em amores lunares com piano ao fundo
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,
Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes.
Creio que tudo é eterno num segundo.
Creio num céu futuro que houve dantes.

Creio nos deuses de um astral mais puro.
Na flor humilde que se encosta no muro,
Creio na carne que enfeitiça o além.
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas.
Creio que o amor tem asas de ouro.
Amém.

(poema de Natália Correia) 

sábado, 30 de julho de 2016

Vinicius e Pixinguinha


















Certa vez Vinicius de Moraes conheceu um americano muito rico em Nova York, que não conseguia entender como o poeta queria voltar para o Brasil, quando podia viver muito melhor nos Estados Unidos.
Vinicius respondeu com um poema delicioso:

Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo
Que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly Hills ...
Um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro
e de noite para lhe dar insônia.
Está muito certo que em ambas as residências
o Sr. tenha geladeiras gigantescas...
que em suas mesas as torradas saltem nervosamente de torradeiras automáticas
e suas portas se abram com célula fotelétrica.
Está muito certo que o Sr. tenha cinema em casa para os meninos verem filme de mocinho.
Isto sem falar nos quatro aparelhos de televisão e na fabulosa hi-fi
com alto-falantes espalhados por todos os andares, inclusive nos banheiros ...

Mas me diga uma coisa, Mr. Buster
Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha? ...


(Tirado do livro Filho de Ogun Bexiguento, de Maria T. Barbosa da Silva e Arthur L. de Oliveira Filho, que traça um perfil de Pixinguinha).


terça-feira, 26 de julho de 2016

No Dia da Vovó, você lembra da sua?




















Convivi com a minha avó do dia em que nasci até os sete anos. Fui a primeira neta e com a morte de minha mãe quando ainda era pequena, minha dinda (porque também era minha madrinha) foi a primeira mulher importante de minha vida. 
Desde que nos conhecemos foi amor à primeira vista: ela cantava pra mim, me dava banho, me fazia altos penteados.  E eu vivia seguindo seus passos por todos os lugares, xeretando, perguntando, tentando imitá-la em tudo. E ela gostava...

Com ela aprendi a fazer biscoitos, a bordar, a fazer flores de papel crepom, a comer muita beterraba pra fazer cocô cor de rosa, a escovar o cabelo 100 vezes antes de dormir pra ele ficar sedoso e brilhante, a fazer colares de flores e contas e pendurar vários no pescoço pra chamar as fadas, a criar pirilampos dentro de vidrinhos para iluminar as noites, a contar histórias que não acabavam nunca e que deixariam Sherazade no chinelo.  
Minha avó me apresentou às fadas e duendes, me ensinou sobre as salamandras e as fases da lua, me fez conhecer os insetos, os caramujos, os peixes que seduziam as meninas bonitas nas noites de luar... cantou pra mim o canto das sereias, me falou em detalhes do reino de Netuno, dos ventos e suas diferentes formas e da reunião que eles faziam todo ano pra botar a conversa em dia. 
Por causa de minha avó eu tive uma casa só minha em cima da mangueira, onde montamos uma cama fofinha, uma prateleira de livros e onde eu pude ser a princesa loura do meu próprio reino encantado.













Quando eu fiz seis anos, o presente mais lindo que ganhei foi da minha avó: um arco-íris enorme na cama, em cima de mim.  Ela amarrou um cristal com um barbante na janela, e o sol criou o arco-íris. Outros presentes que ela me deu viraram meus tesouros : dois carreteis de linha dourada, botões de madrepérola, rendas e fitas, caixinha de costura com tesoura em forma de coração e pedaços de papel de seda coloridos. E uma coleção de postais antigos, que sumiram nas minhas varias mudanças, o que me fez chorar muito.















Minha avó foi minha guru, minha guia no mundo da fantasia e do sonho, minha cúmplice. Sua morte foi brutal pra mim, demorei pra me recuperar.
Seu nome era Luiza e eu não encontrei aqui nenhum retrato dela pra mostrar a vocês. Tinha cabelos castanhos e olhos verdes e na minha mente era tão bonita, com brincos de pedra verde que balançavam quando ela andava e os vestidos estampadinhos de saia e cintura marcada. 
Tenho muitas, muitas saudades de minha dindinha.
--
Hoje sou vovó e entendo um pouco esse jeito de ser. Tenho seis netos no total, cinco meninas e um menino. São pessoas pequenas tão parecidas e tão diferentes ao mesmo tempo. Todas tem meu sangue e se eu for mais fundo, tem também um pouquinho do sangue dela.
Sinto que minha função é explorar com eles esse mundo da infância, que vai ser uma base sólida pra enfrentar o mundo das pessoas grandes quando chegar a hora.

Por causa dos netinhos eu tento parecer um pouco com a minha própria vovó, não sei se chegarei perto da sua criatividade e alegria de viver. 
Mas eu bem que tento...

É um dia muito especial esse dia das vovós...


sexta-feira, 22 de julho de 2016

Cumpadi Jôni e Cumadi Jéqui











No começo dos anos sessenta, os moradores de Afogados da Ingazeira, pequeno município do sertão pernambucano, às margens do rio Pajeú, também estavam encantados com o recém eleito presidente dos Estados Unidos.
John e sua mulher, Jackie, eram como o príncipe encantado e sua princesa, tão jovens, belos e ricos, parecia que tinham saído de um dos contos de fadas que todo mundo aprendeu a amar. Eram mesmo uma belezura.

Seu Izildo e sua mulher Dedé, pequenos criadores de cabras na área rural do município, eram os mais entusiasmados. Os americanos eram quase da idade deles, bem mais bonitos e ricos, é claro, mas também tinham uma filha pequena e parecia que cuidavam da criancinha muito bem. Dedé prestava atenção nisso, porque estava grávida do seu primeiro filho.
Meses depois o menino nasceu, ganhou o nome de Jôni e Izildo teve uma ideia:
- Vou convidar o presidente e a patroa dele para serem padrinhos de nosso filho. Já pensou que honra eles desfilando em carro aberto pelas ruas de Afogados?
Pensado e feito. Com a ajuda do escrivão do cartório, escreveu uma carta bem carinhosa convidando John Kennedy e a primeira dama para batizarem Jôni na igreja matriz de Afogados da Ingazeira, em data à escolha dos padrinhos.
Na semana seguinte Izildo foi até o Consulado Americano, no Recife, e pediu para que a carta fosse entregue em mãos ao presidente Kennedy. Teve de assinar um monte de papel... Uma burocracia danada...










E depois disso, tome esperar. Passou-se uma semana, um mês, dois meses, três... e nada. Seis meses, e Dedé começou a reclamar, não gostava de ter um filho pagão em casa. Se não queria ser padrinho, custava nada mandar dizer... “Posso não, quero não”, e pronto...











Um dia, quase oito meses depois, enfim chegou a resposta. Uma carta com o carimbo da Casa Branca, assinada pelo Presidente dos Estados Unidos em pessoa! Ele dizia que seria impossível agendar uma visita ao Brasil, culpa da diplomacia... Mas que ele e Jackie se consideravam padrinhos "afetivos e morais" do menino. Quer dizer: podiam batizar o Jôni com outra pessoa, mas os padrinhos verdadeiros eram os Kennedy. 

E assim foi. Teve forró e tudo, era época de São João, diz que os convidados eram tantos que a festa durou até o dia amanhecer.
O batismo na igreja foi fotografado e a foto foi devidamente encaminhada para a Casa Branca, como lembrança “do seu afilhado Jôni".

***

Alguns meses depois, um dia chega seu Izildo todo afobado em casa e diz pra Dedé:
- Mulher, tu nem queira saber! O Cumpádi Jôni levou dois tiros e morreu!

Dedé até deixou cair o prato que lavava de tanto choque.
- Minha nossinhora!!! E agora, Izildo, o que é que vai ser da Cumádi Jéqui???

 **


PS – Essa história é contada como verdadeira por várias pessoas da cidade. Infelizmente, todos os personagens da historia já não estão mais aqui para confirmar...

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Um dia meio diferente...















Passei a tarde descalça e de vestido comprido até o chão. De manhã fui no centro cirúrgico pra marcar a minha cirurgia do outro olho, e fazia um calor quase insuportável, 29 graus com umidade relativa de 16%. Dá uma canseira, uma dor de cabeça, uma vontade de cair numa piscina...
Foi bom voltar pra casa e pisar descalça nos ladrilhos frios, os espaços quase vazios, só eu e meus gatos. 

Aproveitei e fiz um monte de coisas: lavei o cabelo com xampu novo, passei um hidratante francês muito cheiroso que alguém deixou aqui, mas não penteei. Queria muito que o cabelo ficasse cacheado, em ondas, mas isso é querer demais. Ele é liso e pesado, aceita Beth que dói menos. Depois arrumei as minhas gavetas do armário, tirei as roupas do cabide e levei pra tomar um ventinho e perder o cheiro de mofo. Separei uma porção de sapatos que preciso passar adiante, e uma bolsa vermelha espalhafatosa que não faz mais parte da minha vida. Sobrou tanto espaço lá dentro que nunca imaginei...
Hesitei bastante, mas pintei de vermelho as unhas dos pés, ficou engraçado... Na hora da fome, comi bolinhos de arroz com molho de gergelim que fiz mais cedo e uma salada de cenoura com passas. Comi com as mãos, sem usar o talher. Quando eu era pequena fazia assim com a minha avó e adorava. 
Agora vou trocar a begônia rosa do vaso, que está muito apertado pra ela e catar cada uma das lagartas que estão na palmeirinha, que ódio de lagartas. 
---
Inventário da minha gaveta da mesinha de cabeceira (a de cima):
cinco lápis de grafite novos, ainda sem ponta | uma caneta hidrocor de ponta fina roxa | um coração de prata filigranada com a inscrição ‘mi amor’ | um óculos de grau sem a haste direita | duas contas de luz pagas com atraso | o livro IChing com prefácio de Jung, envolto em tecido roxo com um laço de fita dourado | dois colares de contas, um azul com medalhinhas e um amarelo e branco | um vidro de cola polar pequeno | dois vidrinhos com óleo essencial: um de lavanda e outro de patchouli | um marcador de livro metalizado em forma de rosa | seis elásticos coloridos de amarrar cabelo | um creme contra picadas de insetos e alergias | uma latinha de tictac sabor laranja bem velho e quase derretido (que joguei no lixo) | uma maquina fotográfica pequena sem o cabo de carregar a bateria | um copinho de vidro roxo com vários colares prateados. 
A gaveta é um verdadeiro ninho de ratos... Vou jogando as coisas dentro durante um tempo, mas de repente precisa mesmo arrumar.
Tem mais duas gavetas na mesinha, carregadas de coisas, não faço ideia do que está escondido ali...

---

















Agora já é noite e vou me preparar pra dormir. Um banho morno, camisola limpinha, chá de boldo sem açucar, o meu preferido. Vou tentar começar a ler A Amiga Genial, que todo mundo tá incensando por aí. Baixei na internet, acho que isso também ajuda a não querer ler. Não sei porque peguei a maior implicância com esse livro...
Tomara que me empolgue depois de começar.
As vezes isso acontece comigo.
Bons sonhos, pessoas...